Acabei de chegar em casa e minha mãe me apareceu com um cartão postal pra me mostrar.
Um cartão escrito por um tio dela, em 1951, 20 dias antes dela nascer.Endereçado aos pais dela.Desejando, em uma forma de escrever há muito tempo deixada pra trás, felicidades ao bebê que ia nascer e à sua família.
Um gesto de 2 minutos que me fez correr pra cá.
Minha mãe sempre teve mania de fazer essas coisas.Meu pai também.São incontáveis as vezes que eles (ela principalmente) me apareceu com alguma coisa antiga.Uma carta, uma foto, um cartão postal.
De todos os tipos, de tudo quanto é gente, principalmente da minha família, e até minhas.
Textos publicados pelo meu avô em jornais (o cara sabia escrever, e como sabia), fotos de casamento monstrando os tios e as tias todos mais novos do que eu sou agora, cartas a ela quando eu estava pra nascer, cartas minhas de quando eu era pequeno, cartas deles mesmos (meus pais) endereçadas a mim me parabenizando quando eu terminava as primeiras séries da escola entre os melhores da classe (sim, eu já fui o melhor aluno da classe, mas isso só durou até meus 15 anos, quando eu resolvi repetir de ano pela primeira vez), e um mundo de coisas.Coisas de 10, 20, 30, 40, 50 anos atrás.Coisas que são, de certa forma, nossas.
Mas dentre as coisas interessantes que existem nessas memórias (e levando em consideração que as vezes tem muita coisa chata, tipo, é um pé ficar ouvindo história da minha tia-prima-bisavó que em 1938 fez sei lá o que...), o que mais chama a atenção é a empolgação deles.Dá pra notar fácil a sensação gostosa que é lembrar de coisas do passado, que podem ser vistas ainda hoje.Coisas de quando eram jovens.De quando eram crianças.Ou de quando faltavam 20 dias para nascer...
Daí eu penso se todos os pais são assim.Se todos tem mania de mostrar coisa antiga pros filhos.
E daí eu penso em mim.Meu passado é tão pequeno ainda mas eu tenho tanta coisa guardada... Acho que não há nada melhor pra lembrar das pessoas e lugares do que cartas e fotos.Tenho bastante.Desde um bilhetinho bobo de "boas férias" da minha professora de ginásio até belas cartas de amor da minha primeira namorada, passando pelas cartas malucas que o Corradi me mandava no meu aniversário, escritas em guardanapo de boteco.E fotos, fotos, fotos...
Que digam que eu vivo do passado, mas estarão enganados.A nostalgia natural de todos eu também tenho, claro.Sou testemunha daquela frase maldita que toda-criança-escuta-e-jamais-acredita : "Aproveita agora, é a melhor fase da sua vida".Isso bem na época em que mais queremos crescer logo.Bem irônico.Mas o que acontece mesmo comigo é que eu gosto de ter as coisas guardadas pra lembrar.E gosto de guardar as coisas hoje para lembrar depois.Gosto de ter um "histórico" da minha vida.
E isso está se perdendo hoje.... as cartas que eu trocava, as fotos que eu recebia e tirava... não estão mais na minha gaveta.Estão no meu computador.Não há mais cartas, há emails.Daqui há 10 anos, se eu quiser ler alguma carta que me mandaram, provavelmente vou ter que lembrar se eu fiz "backup" daquilo, ou se a dita cuja simplesmente se foi pra sempre quando eu troquei de computador...
Hoje, é só formatar a máquina que as fotos, cartas, cartões virtuais ja eram... nunca mais.Já escrevi e recebi muito mais emails do que cartas escritas a mão.Óbvio.Mas não estou contando aqui os emails rápidos de "bom dia, tchau" ou as brincadeiras da internet.Nem mesmo os rápidos memorando de trabalho.Estou contando as cartas importantes.Quem nunca trocou um email de 500 linhas com alguem há 4 anos atrás... e não faz a menor idéia de onde ele foi parar ?
Se fossem cartas, estariam lá, a gente poderia ler de novo um dia... cartas a gente não joga fora como sendo uma coisa "de todo o dia"...
Tenho mais lembranças "paupáveis" de quinze, vinte anos atrás do que de cinco.Agora é tudo luz na tela, não posso pegar, ver a foto meio amarelada de velha, ou a tinta meio borrada e apagada da carta...
Será que quando eu tiver um filho, ALGUEM vai me escrever uma carta a mão ? Provavelmente vou receber trocentos emails, cartõezinhos virtuais, "scraps" de felicidade.... mas vai tudo estar "jogado", ou dentro da internet, ou dentro do meu computador... e a gente sempre troca de computador... e não é sempre que fazemos backup de absolutamente tudo...
Eu ia gostar de, daqui há uns 30 anos, mostrar pra alguem uma carta que me mandaram hoje.Ou simplesmente ler a carta.
Ou uma foto.
Ou um cartão postal...
Será que daqui há alguns anos eu vou ter backup de tudo que recebi no micro em 2005, como eu teria uma carta guardada na gaveta, por exemplo?
Eu amo a tecnologia.
E morro de medo dela.
E ninguem percebe que ... ah, não, não vou ser chato hoje.Ainda não.
E cansei de escrever.
tatá




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